Ary Prata é professor e tem se ocupado em pesquisar
a contextualização do livro didático nas escolas do
semiárido, e também o uso da Literatura de Cordel no
fazer pedagógico.
Tal provocação me fez realizar perguntas, obtendo
as seguintes respostas:
Como, quando e onde se deu seu
envolvimento com a cultura popular?
Nascido na terra de Pinto do Monteiro
e vivendo toda a vida na Prata, município
que compõe o que podemos chamar de “eixo
da poesia popular” (cidades circunvizinhas
conhecidas pelo seu potencial poético),
minha relação com esta cultura remete a
adolescência e as muitas oportunidades
que tive de ver e acompanhar o trabalho
de grandes mestres da poesia popular.
Tentando imitar os cantadores de viola,
comecei a escrever os primeiros versos
na escola, continuando até chegar à
universidade, ocasião em que participei
de dois livros e, a partir daí, nunca
mais parei de escrever poesia nem de me
integrar às vertentes culturais do nosso
povo. Foi também durante a academia que
comecei a participar de projetos musicais
e passei a fomentar nas escolas e nas
comunidades, a preservação da nossa
identidade cultural e poética.
Qual o sentimento que lhe envolve quando
partícipe de tais manifestações?
Participar das manifestações culturais
populares e envolver-se nesta diversidade
de cultura em que o cariri paraibano está
imerso, preenche meu espírito e me aproxima
cada vez mais das minhas raízes. É como
olhar para uma velha estrada e reconhecer
nela, o mapa para um tesouro, escutar nas
madrugadas silenciosas, os murmúrios da
nossa história. Estes são sentimentos
compartilhados por todos que se entregam
de espírito ao chamado da cultura.
Qual o nível de importância de tais eventos?
A cultura local de um povo é a sua identidade
perante o mundo. Entender nossa cultura é
entender nossa essência, é o que nos torna
vivos… Pessoas que reconhecem sua cultura
tornam-se pessoas felizes e pessoas felizes…
São pessoas livres! Assim, as manifestações
da nossa cultura popular livre nos ajudam a
resgatar nossa definição perante os povos,
a reaproximar a juventude de suas raízes e
recriar a concepção sobre nosso papel perante
uma sociedade mais justa, consciente e liberta.
Como a cultura popular poderia ser
empregada em prol de todos?
A cultura popular, antes de tudo, representa
um sentimento nativo compartilhado por uma
coletividade. Suas manifestações, seja na
música, na dança, no teatro, na literatura
ou na poesia, representam algo próprio e
apreciado por todos. Esta identificação
cultural comum, compartilhada por uma
coletividade, se unida às novas práticas
e tendências, em especial, à educação, pode
render grandes frutos no desenvolvimento
educacional de jovens e adultos. Um bom
exemplo do que estou descrevendo pode ser
reconhecido no Cordel e seu uso nas salas
de aula do semiárido nordestino. O uso da
poesia popular retratada no cordel consegue
atrair os estudantes e servir de ferramenta
de auxilio na prática docente. É a nossa
cultura popular pura, do nosso povo,
servindo para educar o nosso povo.
Por que os meios acadêmicos não conseguem
explicar o que é cultura popular?
O próprio termo “cultura” e seu significado
ainda causa acalorados debates no seio da
academia. A definição de “cultura popular”
então, esbarra num turbilhão de interrogações
e espanto que se preocupa mais em encontra
uma definição teórica que trazer e usar
suas riquezas dentro das universidades.
Os pesquisadores tendem a se preocupar em
encontrar definições cientificas e esquecem
que a beleza da cultura popular é a sua
subjetividade e sua característica própria
de recrutar pessoas diferentes reunidas
pela arte. As academias, em minha opinião,
não deveriam se preocupar em encontrar uma
fórmula científica que descrevesse a cultura
popular, deveriam sim, aproveitar a influencia
que a cultura exerce sobre as pessoas,
canalizando seus benefícios em prol do saber
universal.