Capa do Cordel Mói de Vagabundo

O Forró do Deletério

Quando o mundo começou
não tinha bicho nem planta
não tinha mandacaru
nem o pavão que encanta
não tinha o Ceará
nem os romeiros de lá
fazendo a terra mais santa.

No começo er´um sossego
era vela sem pavio
o vento soprava solto
de noite fazia frio
na brecha de pedra solta
er´um barulho da gota
na posição do assovio

O que aqui acontecia
era uma repetição
ou o sol rachava a terra
levantando um poeirão
ou se não, chovia muito
e o céu dava circuito
clareado de trovão.

Menino, a coisa é séria!
era o mundo perigoso
não existia ninguém
mas já tinha o tinhoso
escondido pelo véu
nas boniteza do céu
no reinado glorioso.

Ninguém sabia que um dia
o homem ia nascer
pra tomar conta do mundo
sem nunca poder saber
que aqui era inquilino
um miserável traquino
não tinha olho pra vê.

O primeiro bicho homem
feito pelo Pai querido
foi tomando liberdade
foi se enchendo de sentido
achando que tava só
pensou com seu fiofó
que queria ser marido

O tinhoso que avoava
vendo aquilo imaginou
um dia ter um espeto
um lugar cheio de fedor
pra botar aquele bicho
para queimar o rabicho
num fogareiro de horror.

Tava a coisa começada
a ruindade tomou forma
o nó que ninguém sabia
ficou amigo da corda
apareceu a família
botaram no burro a cilha
e amontada tava a sogra.

Foi tiro de confusão
que nem foguete de festa
pipoco de foguetão
cachorrada desembesta
por conta da tal família
o mundo perdeu a quilha
foi criado o que não presta.

Inventaram um tal de Adão
um Abel e um Caim
o primeiro que nem mel
o segundo cabra ruim
a desgraça tava feita
era pior que maleita
foi o começo do fim.

Nessa altura do mundo
já se tinha a bicharada
que perdeu o seu sossego
na terra abençoada
depois do homem chegado
um bicho muito safado
que não valia de nada.

Domesticou animais
galinha, cachorro e gato
passando da natureza
inventou usar sapato
aprendeu fazer comida
da semente recolhida
inventou também o prato.

Inventou também mentira
fofoca, bajulação,
inventou também a vila
e até uma eleição
coisa que o diabo gosta
botou catinga em bosta
tava feita a confusão.

Mas não soube dominar
seu desejo de desvio
queria ser rei de tudo
adomar bicho bravio
perdeu feio sua fé
quando enfrentou a mulher
que sabia usar o cio.

Com aqueles óim de onça
em corpo de tanajura
o bicho hôme nem tava
vendo a própria sepultura
naquele querequequé
virou bichim de mulher
coisa de muita quentura.

E devagar fraquejando
o homem foi derrotado
bem diferente de outrora
pr’aquilo que foi criado
se soubesse não fazia
nem de noite, nem de dia
outro menino safado.

O mundo ficou doente
passou de fácil a difícil
depois do homem chegado
distribuindo seu vício
só pode ter um final
pra se livrar de seu mal
só lhe resta o precipício.

O precipício é sumir
numa saída fatal
procurar outro terreiro
lá com outro carnaval
sem empinar o nariz
tentando ser aprendiz
daquilo que não for mal.

Bicho homem fez de tudo
aterrou chão de maré
enfeitou muita igreja
soube fazer rapa-pé
só não viu que sua vida
foi todinha construída
parecendo um cabaré.

Vestiu-se de seda pura
se mostrou apavonado
e de pedras preciosas
os dedos bem anelados
pendurado no pescoço
correntes cobrindo osso
o peito todo ourinado.

Sem pensar no amanhã
o infeliz abestaiado
seguindo o rumo da venta
não vê que está lascado
distribui sua orgia
sem se lembrar que um dia
esse bar vai ser fechado.

No dia que for o fim
cada qual com seu nopró
estarei na longa fila
vestindo meu paletó
com a viagem vencida
muita gente conhecida
encontrarei no forró.

Dizem que nesse forró
por volta das 5 e meia
o freguês tem que dançar
depois de levar uma pêia
o Diabo tira tudim
dançando pra lá de ruim
de quebra com a cara feia.

Se você não quer dançar
e nem gosta de forró
e acha que o Diabo é ruim
e que tem coisa melhor
vá forrando sua mala
com tudo que Deus lhe valha
pra se livrar do pior.



Voltar