Lendo sobre a história de Portugal, me deparei com a seguinte informação: que Dom João V havia lançado mão de uma Lei Imperial, a fazer valer que, a venda de folhetos de cordel seria exclusividade comercial para os cegos, ou seja, a partir dali apenas as pessoas cegas poderiam comercializar os tais folhetos. Houve uma grita enorme dos livreiros da época. Quem já se viu, pessoas incultas passarem a lidar com literatura? Mas, nada demoveu Sua Alteza a recuar de sua medida. Essa lei perdurou por mais de 100 anos em Portugal.
Reconhecendo, mediante tal parte da história, que os cegos foram guardiões da referida literatura, mesmo que sob tais circunstâncias, resolvi verter para o Sistema Braille alguns de meus títulos de cordel, como a devolver aos deficientes visuais uma vertente literária que fez parte de tão longo tempo em suas vidas. Foi uma festa. Tal gênero literário, o cordel, vinha cobrir uma enorme lacuna existente na oferta de leitura aos não visuais, ou seja, uma literatura mais popular, como particularmente o é, o contingente de leitores em Braille.
Com o patrocínio da Secretaria de Educação da Prefeitura de João Pessoa – Paraíba, representada pelo então Secretário, o escritor Walter Galvão, o projeto em Braille foi consagrado, realizando-se, em 2005, a primeira edição de literatura de cordel em Braille no Brasil. Com recursos municipais não poderíamos exceder um volume maior que o abrangente as cercanias de nossa região, portanto a referida edição apenas pontuou a abertura de um novo suporte para nossa literatura de cordel. Alardeei aos quatro cantos do Brasil as boas novas.
Todos, sem exceção, fizeram a maior festa, porém ninguém efetivamente se interessou em abraçar tal causa. Por natureza não se deixa de se prejulgar tal desinteresse: é uma leitura popular, marginal; é dirigida aos excluídos; e, por fim, não é um suporte comercial (com raríssimas ofertas, o que é vertido em Braille não se vende, se doa), esse é o motivo de tal falta de interesse pela causa. Acorde-se, com um silêncio desses!